Violência Obstétrica: Como Identificar, Prevenir e Quais São Seus Direitos
- Ygor José
- 17 de nov.
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de dez.

A gravidez e o parto deveriam ser momentos de cuidado, respeito e acolhimento. No entanto, muitas mulheres enfrentam situações traumáticas durante o pré-natal, parto e pós-parto que configuram violência obstétrica. Esse tipo de violência pode ser física, verbal, psicológica ou institucional — e é mais comum do que parece.
Neste artigo, explicamos como identificar essa violência, como preveni-la e quais são seus direitos como gestante.
🤰 O Que é Violência Obstétrica?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência obstétrica como "o abuso, a desconsideração e a falta de respeito pelos direitos humanos das mulheres durante o parto". No contexto brasileiro, ela é compreendida como qualquer ação ou omissão que cause dano à mulher durante o atendimento na gravidez, parto, pós-parto ou aborto, incluindo:
Tratar com desrespeito, humilhação ou negligência;
Realizar procedimentos sem consentimento;
Ignorar dores, recusar analgesia sem motivo clínico;
Obrigar a mulher a ficar em posição desconfortável ou calada;
Impedir acompanhante, negar informação ou atendimento adequado.
💡 Termos como "isso é normal", "na próxima você fecha as pernas" ou "não faz escândalo" são frases típicas da violência obstétrica verbal.
📋 Exemplos de Violência Obstétrica
Tipo | Exemplo |
Física | Realizar episiotomia (corte vaginal) sem necessidade e sem consentimento |
Psicológica | Gritar, ameaçar, debochar ou humilhar a gestante |
Verbal | Comentários agressivos sobre o corpo, escolhas ou dor da mulher |
Negligência | Recusar analgesia ou atendimento por preconceito ou julgamento |
Institucional | Impedir a presença de acompanhante (o que é garantido por lei) |
🟢Prevalência da Violência Obstétrica no Brasil

A violência obstétrica é um problema de saúde pública significativo no Brasil. Dados epidemiológicos mostram variações consideráveis de acordo com a metodologia utilizada, mas indicam uma situação alarmante:
Aproximadamente 45% das mulheres relataram ter vivenciado pelo menos um ato de violência obstétrica durante o parto, incluindo violência física ou psicológica, tratamento desrespeitoso, falta de informação ou violação da privacidade
Entre as mulheres com risco obstétrico habitual (sem complicações), 56,1% foram submetidas à episiotomia e 37,3% sofreram a manobra de Kristeller, mesmo sem necessidade clínica
Mulheres adolescentes, negras, com baixa escolaridade e usuárias do SUS estão sob maior risco
📋Procedimentos Específicos e Suas Contraindicações
Episiotomia

A episiotomia é um corte no períneo (genital) realizado durante o parto vaginal para aumentar a passagem do bebê. É um procedimento que pode ser doloroso e invasivo:
Deve ser realizado apenas quando clinicamente indicado e com consentimento informado da mulher
Pesquisas condenam a prática de episiotomia de rotina, pois seus benefícios não são comprovados cientificamente
Quando feita sem autorização da parturiente, pode acarretar inclusive uma mutilação genital, com sequelas físicas permanentes
Manobra de Kristeller

A manobra de Kristeller consiste na aplicação de pressão no fundo do útero durante o parto para facilitar a saída do bebê. No entanto, essa prática é contraindicada por autoridades de saúde:
Não existem evidências científicas de que pressão sobre o fundo uterino no período expulsivo tenha qualquer benefício para o feto ou para a mãe
A manobra é considerada ineficaz na redução do tempo de parto e não aumenta a taxa de partos vaginais espontâneos
O Ministério da Saúde brasileiro e a Organização Mundial da Saúde desencorajam esse tipo de procedimento
Apesar da contraindicação, é realizada em cerca de 1/3 das mulheres brasileiras
Está associada a riscos relevantes, como lacerações perineais, lesões no assoalho pélvico, incontinência urinária e fecal, dor crônica e traumas psicológicos
Cesariana Sem Indicação Clínica
A cesariana, quando feita sem indicação clínica real e sem o consentimento da gestante, pode ser considerada uma violência obstétrica. Segundo o Ministério da Saúde, essa cirurgia aumenta o risco não só de infecção, mas de várias complicações pós-parto, como hemorragia, complicações da anestesia (podendo chegar até à morte), e aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido.
A Resolução nº 368/2015 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabeleceu normas para estimular a redução de cesarianas desnecessárias na saúde suplementar.
🚫 Como Prevenir a Violência Obstétrica

✅ 1. Conheça Seus Direitos (veja abaixo)
✅ 2. Escolha um local de parto que respeite o parto humanizado
✅ 3. Faça um plano de parto e leve impresso
✅ 4. Tenha um acompanhante de confiança
✅ 5. Anote tudo: datas, nomes de profissionais, frases ditas
✅ 6. Exija explicações antes de qualquer procedimento
⚖️ Quais São Seus Direitos?
🟢 1. Direito a um acompanhante
Garantido pela Lei Federal nº 11.108/2005, em qualquer parto (SUS ou particular).
🟢 2. Consentimento informado
Procedimentos como cesárea, episiotomia ou toque vaginal só podem ser feitos com seu consentimento e explicação clara.
🟢 3. Parto humanizado
Você tem direito a respeito, privacidade, analgesia quando necessário, liberdade de posição, entre outros, conforme diretrizes da OMS e do Ministério da Saúde.
🟢 4. Atendimento digno, gratuito e sem discriminação
Negar atendimento ou agir com preconceito por idade, cor, orientação sexual ou religião é ilegal e denunciável.
🛡️ Sofri Violência Obstétrica. O que posso fazer?

✅ 1. Registre o ocorrido
Anote nomes, horários, frases ditas;
Se possível, peça cópia do prontuário;
Guarde exames, laudos ou fotos.
✅ 2. Faça uma denúncia
Ouvidoria do hospital;
Disque 136 – Ouvidoria do SUS;
Ministério Público do seu estado;
Defensoria Pública;
Conselho Regional de Medicina (CRM).
✅ 3. Busque indenização
Você pode entrar com ação judicial por danos morais ou físicos, com auxílio de advogado ou da Defensoria Pública.
📎 Dica prática: Plano de Parto
O plano de parto é um documento simples onde você registra:
Como deseja ser tratada;
Procedimentos que aceita ou não;
Presença de acompanhante;
Opções de analgesia, posição de parto, contato com o bebê.
Preferência de posição de parto
Vontade de contato imediato com o bebê
Outras preferências pessoais e culturais
Como usar o plano de parto:
Leve-o assinado por você e entregue à maternidade no momento da internação
Distribua cópias para a equipe médica
O plano tem peso legal e ajuda a evitar abusos
Demonstra que você refletiu, compreendeu e está ciente daquilo que será feito com você
Busca preservar seus direitos fundamentais
Leve-o assinado por você e entregue na maternidade. Ele tem peso legal e ajuda a evitar abusos.
Fontes Utilizadas
📚 Artigos Científicos e Produção Acadêmica
Leal, M. C.; Pereira, A. P. E.; Domingues, R. M. S. M. et al. Epidemiologia da violência obstétrica: uma revisão narrativa do contexto brasileiro. Ciência & Saúde Coletiva, 2024; 29(9): e12222023.
D’Oliveira, A. F. P. L.; Diniz, S. G.; Schraiber, L. B. Violência de gênero e saúde coletiva. In: Organização Mundial da Saúde (OMS). Assistência ao parto normal. 2018.
🏛️ Órgãos Públicos e Instituições Oficiais
Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Violência obstétrica. 2022.
Ministério da Saúde (Brasil). Humanização do parto: Nasce o respeito. Portaria MS/GM nº 569, de 2000.
📘 Conselhos e Entidades Médicas
Conselho Federal de Medicina (CFM). CFM apoia Ministério da Saúde em decisão sobre o uso do termo “violência obstétrica”. Portal CFM, 2019.



