Violência Obstétrica: Como Identificar, Prevenir e Quais São Seus Direitos
- 17 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de fev.

A gravidez e o parto deveriam ser momentos de cuidado, respeito e acolhimento. No entanto, muitas mulheres enfrentam situações traumáticas durante o pré-natal, parto e pós-parto que configuram violência obstétrica. Esse tipo de violência pode ser física, verbal, psicológica ou institucional — e é mais comum do que parece.
Neste artigo, explicamos como identificar essa violência, como preveni-la e quais são seus direitos como gestante.
🤰 O Que é Violência Obstétrica?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência obstétrica como "o abuso, a desconsideração e a falta de respeito pelos direitos humanos das mulheres durante o parto". No contexto brasileiro, ela é compreendida como qualquer ação ou omissão que cause dano à mulher durante o atendimento na gravidez, parto, pós-parto ou aborto, incluindo:
Tratar com desrespeito, humilhação ou negligência;
Realizar procedimentos sem consentimento;
Ignorar dores, recusar analgesia sem motivo clínico;
Obrigar a mulher a ficar em posição desconfortável ou calada;
Impedir acompanhante, negar informação ou atendimento adequado.
💡 Termos como "isso é normal", "na próxima você fecha as pernas" ou "não faz escândalo" são frases típicas da violência obstétrica verbal.
📋 Exemplos de Violência Obstétrica
Tipo | Exemplo |
Física | Realizar episiotomia (corte vaginal) sem necessidade e sem consentimento |
Psicológica | Gritar, ameaçar, debochar ou humilhar a gestante |
Verbal | Comentários agressivos sobre o corpo, escolhas ou dor da mulher |
Negligência | Recusar analgesia ou atendimento por preconceito ou julgamento |
Institucional | Impedir a presença de acompanhante (o que é garantido por lei) |
🟢 Prevalência da Violência Obstétrica no Brasil

A violência obstétrica é um problema de saúde pública significativo no Brasil. Dados epidemiológicos mostram variações consideráveis de acordo com a metodologia utilizada, mas indicam uma situação alarmante:
Aproximadamente 45% das mulheres relataram ter vivenciado pelo menos um ato de violência obstétrica durante o parto, incluindo violência física ou psicológica, tratamento desrespeitoso, falta de informação ou violação da privacidade
Entre as mulheres com risco obstétrico habitual (sem complicações), 56,1% foram submetidas à episiotomia e 37,3% sofreram a manobra de Kristeller, mesmo sem necessidade clínica
Mulheres adolescentes, negras, com baixa escolaridade e usuárias do SUS estão sob maior risco
📋 Procedimentos Específicos e Suas Contraindicações
🚨 Episiotomia

A episiotomia é um corte no períneo (genital) realizado durante o parto vaginal para aumentar a passagem do bebê. É um procedimento que pode ser doloroso e invasivo:
Deve ser realizado apenas quando clinicamente indicado e com consentimento informado da mulher
Pesquisas condenam a prática de episiotomia de rotina, pois seus benefícios não são comprovados cientificamente
Quando feita sem autorização da parturiente, pode acarretar inclusive uma mutilação genital, com sequelas físicas permanentes
🚨 Manobra de Kristeller

A manobra de Kristeller consiste na aplicação de pressão no fundo do útero durante o parto para facilitar a saída do bebê. No entanto, essa prática é contraindicada por autoridades de saúde:
Não existem evidências científicas de que pressão sobre o fundo uterino no período expulsivo tenha qualquer benefício para o feto ou para a mãe
A manobra é considerada ineficaz na redução do tempo de parto e não aumenta a taxa de partos vaginais espontâneos
O Ministério da Saúde brasileiro e a Organização Mundial da Saúde desencorajam esse tipo de procedimento
Apesar da contraindicação, é realizada em cerca de 1/3 das mulheres brasileiras
Está associada a riscos relevantes, como lacerações perineais, lesões no assoalho pélvico, incontinência urinária e fecal, dor crônica e traumas psicológicos
🚨 Cesariana Sem Indicação Clínica
A cesariana, quando feita sem indicação clínica real e sem o consentimento da gestante, pode ser considerada uma violência obstétrica. Segundo o Ministério da Saúde, essa cirurgia aumenta o risco não só de infecção, mas de várias complicações pós-parto, como hemorragia, complicações da anestesia (podendo chegar até à morte), e aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido.
A Resolução nº 368/2015 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabeleceu normas para estimular a redução de cesarianas desnecessárias na saúde suplementar.
🚫 Como Prevenir a Violência Obstétrica

✅ 1. Conheça Seus Direitos (veja abaixo)
✅ 2. Escolha um local de parto que respeite o parto humanizado
✅ 3. Faça um plano de parto e leve impresso
✅ 4. Tenha um acompanhante de confiança
✅ 5. Anote tudo: datas, nomes de profissionais, frases ditas
✅ 6. Exija explicações antes de qualquer procedimento
⚖️ Quais São Seus Direitos?
1️⃣ Direito a um Acompanhante
Garantido pela Lei Federal nº 11.108/2005, em qualquer parto (SUS ou particular).
2️⃣ Consentimento Informado
Procedimentos como cesárea, episiotomia ou toque vaginal só podem ser feitos com seu consentimento e explicação clara.
3️⃣ Parto Humanizado
Você tem direito a respeito, privacidade, analgesia quando necessário, liberdade de posição, entre outros, conforme diretrizes da OMS e do Ministério da Saúde.
4️⃣Atendimento Digno, Gratuito e sem Discriminação
Negar atendimento ou agir com preconceito por idade, cor, orientação sexual ou religião é ilegal e denunciável.
🛡️ Sofri Violência Obstétrica. O que Posso Fazer?

✅ Registre o ocorrido
Anote nomes, horários, frases ditas;
Se possível, peça cópia do prontuário;
Guarde exames, laudos ou fotos.
✅ Faça uma denúncia
Ouvidoria do hospital;
Disque 136 – Ouvidoria do SUS;
Ministério Público do seu estado;
Defensoria Pública;
Conselho Regional de Medicina (CRM).
✅ Busque indenização
Você pode entrar com ação judicial por danos morais ou físicos, com auxílio de advogado ou da Defensoria Pública.
📎 Dica prática: Plano de Parto
O plano de parto é um documento simples onde você registra:
Como deseja ser tratada;
Procedimentos que aceita ou não;
Presença de acompanhante;
Opções de analgesia, posição de parto, contato com o bebê.
Preferência de posição de parto
Vontade de contato imediato com o bebê
Outras preferências pessoais e culturais
🚨 Como usar o plano de parto:
Leve-o assinado por você e entregue à maternidade no momento da internação
Distribua cópias para a equipe médica
O plano tem peso legal e ajuda a evitar abusos
Demonstra que você refletiu, compreendeu e está ciente daquilo que será feito com você
Busca preservar seus direitos fundamentais
Leve-o assinado por você e entregue na maternidade. Ele tem peso legal e ajuda a evitar abusos.
Fontes Utilizadas
📚 Artigos Científicos e Produção Acadêmica
Leal, M. C.; Pereira, A. P. E.; Domingues, R. M. S. M. et al. Epidemiologia da violência obstétrica: uma revisão narrativa do contexto brasileiro. Ciência & Saúde Coletiva, 2024; 29(9): e12222023.
D’Oliveira, A. F. P. L.; Diniz, S. G.; Schraiber, L. B. Violência de gênero e saúde coletiva. In: Organização Mundial da Saúde (OMS). Assistência ao parto normal. 2018.
🏛️ Órgãos Públicos e Instituições Oficiais
Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Violência obstétrica. 2022.
Ministério da Saúde (Brasil). Humanização do parto: Nasce o respeito. Portaria MS/GM nº 569, de 2000.
📘 Conselhos e Entidades Médicas
Conselho Federal de Medicina (CFM). CFM apoia Ministério da Saúde em decisão sobre o uso do termo “violência obstétrica”. Portal CFM, 2019.







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