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Direitos do Paciente: "Posso Ver a Medicação que Estão Aplicando no Hospital?”

  • 2 de fev.
  • 6 min de leitura

Recentemente, o Brasil foi chocado pela notícia de um técnico de enfermagem que aplicou desinfetante em pacientes intravenosamente, levando-os à morte. Esses casos extremos reacenderam um debate essencial: o quanto o paciente pode (e deve) acompanhar o que está sendo aplicado em seu próprio corpo dentro de hospitais e unidades de saúde? 


Este artigo pretende fornecer um guia prático sobre os direitos que todo paciente possui em relação à administração de medicamentos durante internações hospitalares. Em um sistema onde erros de medicação são a terceira causa mais comum de eventos adversos em hospitais (segundo a ANVISA), conhecer seus direitos não é apenas empoderamento - é uma questão de segurança.


🔍 Posso Ver a Medicação que Está Sendo Preparada e Aplicada em Mim?


Sim. O paciente tem o direito de:


  • Saber qual medicamento está sendo administrado,

  • Saber para que ele serve,

  • Saber a dose e o horário,

  • E, sempre que possível, ver a medicação antes da aplicação.



Em hospitais, é comum que a medicação venha pronta da farmácia hospitalar ou seja preparada pela equipe de enfermagem. Em ambos os casos, o paciente pode perguntar, pedir explicação e confirmar o nome do medicamento antes da aplicação. Isso não é falta de educação nem desconfiança: é exercício de um direito básico de segurança.


Quando o paciente está consciente e orientado, ele pode e deve participar desse processo, confirmando se aquele medicamento corresponde ao que foi prescrito.



⚖️ Quais são Meus Direitos em Relação à Medicação Durante a Internação?


O paciente internado tem direito a:


  • Receber apenas medicamentos prescritos por profissional habilitado;

  • Ser informado sobre efeitos, riscos e finalidade do medicamento;

  • Recusar um medicamento, especialmente se houver dúvida ou medo justificado, até receber explicações adequadas;

  • Ter registro de tudo que é administrado em seu prontuário.


Além disso, a equipe deve seguir os chamados “certos” da medicação:paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa e horário certo. Falhas nesse processo configuram erro assistencial e violação de segurança do paciente.


📜 Posso Exigir Ver a Preparação do Medicamento?


SIM, você tem direitos específicos:


A) Direito à Identificação:


  • Ver o medicamento na embalagem original

  • Conferir nome, dosagem e validade

  • Solicitar leitura da prescrição médica em voz alta


B) Direito ao Processo de Preparação:


  • Observar a higienização das mãos do profissional

  • Presenciar a abertura de embalagens seladas

  • Verificar diluição e manipulação (quando possível)


C) Limitações Práticas:


  • Restrições de assepsia: Em procedimentos estéreis (UTI, centro cirúrgico)

  • Questões de fluxo: Em farmácias hospitalares centralizadas

  • Segurança do profissional: Em medicações controladas/psicotrópicas


Como Exercer esse Direito:


  1. Pergunte educadamente: "Posso ver o nome do remédio na caixa?"

  2. Peça confirmação: "Poderia confirmar se é mesmo [nome do medicamento]?"

  3. Verifique sua identidade: Certifique-se que conferiram sua pulseira


📌 Como Posso Acompanhar a Prescrição de um Paciente Internado?

A prescrição médica faz parte do prontuário e o paciente tem direito de acessá-la. Na prática, isso significa que ele pode:


  • Pedir para o médico explicar o que está prescrito,

  • Solicitar que a equipe de enfermagem informe quais medicamentos estão programados para o dia,

  • Pedir para ver a prescrição, especialmente em internações mais longas ou tratamentos complexos.


No caso de pacientes que não conseguem se comunicar bem (idosos, pessoas sedadas, pacientes com deficiência), o acompanhante ou responsável legal pode acompanhar a prescrição e os horários das medicações.


Acompanhar a prescrição ajuda a perceber, por exemplo:


  • Se algum medicamento foi trocado,

  • Se houve atraso em doses importantes,

  • Se surgiu um remédio que não estava sendo utilizado antes.


Perguntas-Chave para a Equipe:


  • "Este é um medicamento novo? Por que foi acrescentado?"

  • "Houve alteração na dose do que eu já tomava?"

  • "Este medicamento interage com os outros que estou tomando?"

  • "Quando será revisada minha prescrição médica?"


Sinais de Alerta na Prescrição:


  • Medicamentos rabiscados ou ilegíveis

  • Siglas não padronizadas

  • Ausência de data/hora

  • Múltiplas alterações não assinadas

  • Prescrições com mais de 7 dias sem revisão



🔒 Como ter Mais Segurança em Relação a Erros de Medicação?

Algumas atitudes simples podem aumentar muito a segurança do paciente:


✔️ Confirmar sempre o nome do medicamento

Antes da aplicação, perguntar:“Qual é esse medicamento e para que ele serve?”


✔️ Informar alergias e reações anteriores


A equipe deve perguntar, mas o paciente também pode reforçar:


  • Alergias a remédios,

  • Reações graves anteriores,

  • Medicamentos que já utiliza.


✔️ Acompanhar horários


Se uma medicação importante atrasar muito, o paciente ou acompanhante pode avisar a equipe.


✔️ Ter um acompanhante quando possível


O acompanhante ajuda a:


  • Observar o que está sendo administrado,

  • Lembrar a equipe sobre medicações,

  • Comunicar mudanças no estado do paciente.


✔️ Pedir explicações em caso de dúvida


Se algo parecer diferente do habitual, é legítimo questionar antes da aplicação.

Essas medidas não substituem a responsabilidade da equipe, mas ajudam a criar camadas extras de proteção contra erros.


🚨 Quem é Responsável Quando Ocorre um Erro Grave?


Quando há erro de medicação com dano ao paciente, a responsabilidade pode envolver:


  • O profissional que aplicou a substância,

  • Falhas nos protocolos da unidade,

  • Problemas na farmácia hospitalar,

  • Falhas de supervisão e gestão.


Por isso, não se trata apenas de erro individual, mas muitas vezes de falha no sistema de segurança do serviço de saúde. O paciente ou a família têm direito a:


  • Receber informações claras sobre o ocorrido,

  • Registrar reclamação na ouvidoria,

  • Solicitar apuração administrativa,

  • E, em casos graves, buscar responsabilização judicial.


⚖️ Direitos do Paciente Diante de Suspeita de Erro ou Negligência

Se houver suspeita de erro na medicação ou no atendimento, o paciente ou familiar pode:


  • Pedir explicações formais à equipe e à direção da unidade,

  • Registrar queixa na ouvidoria da Secretaria de Saúde ou do hospital,

  • Acionar o Disque Saúde 136 no caso do SUS,

  • Procurar o Conselho de Saúde do município,

  • E, em situações graves, buscar o Ministério Público ou orientação jurídica.


O paciente também tem direito de solicitar:


  • Cópia do prontuário,

  • Registros de medicação administrada,

  • Relatórios médicos.


Passo a Passo Imediato:


Esses documentos são essenciais para apuração dos fatos.


1. Comunique Imediatamente:


  • Alerte o profissional aplicador

  • Chame o enfermeiro responsável

  • Solicite o médico plantonista


2. Preserve Evidências:


  • Não permita descarte de embalagens

  • Peça cópia da prescrição atual

  • Fotografe (se possível) materiais utilizados


3. Exija Documentação:


  • Notificação do evento adverso

  • Registro no prontuário médico

  • Cópia do relatório de incidente


4. Acione os Canais:


  • Núcleo de Segurança do Paciente do hospital

  • ANVISA - Notivisa (sistema de notificação)

  • Ouvidoria do SUS - 136

  • Conselho Regional de Enfermagem/Medicina


🚫 Posso Impedir a Aplicação da Medicação e Só Autorizar Depois de Ver o que Está Sendo Administrado?

Sim. O paciente tem o direito de aceitar ou recusar procedimentos, incluindo a administração de medicamentos, desde que esteja consciente e capaz de decidir. Isso faz parte do princípio do consentimento informado, que garante que ninguém deve receber tratamento sem compreender e concordar com o que está sendo feito.


Na prática, isso significa que o paciente pode:


  • Pedir para saber qual é o medicamento,

  • Pedir para ver o rótulo, ampola ou identificação quando possível,

  • Solicitar explicação sobre para que serve e quais são os riscos,

  • E adiar a aplicação até se sentir seguro.


Se o paciente disser que só autoriza a medicação após receber essas informações, a equipe deve respeitar essa decisão e prestar os esclarecimentos necessários.


⚠️ Há limites para essa recusa?

Sim. Em situações de urgência ou risco imediato de vida, quando o paciente está inconsciente ou incapaz de decidir, a equipe pode agir para salvar a vida mesmo sem consentimento formal. Nesses casos, a prioridade é preservar a vida.

Fora dessas situações extremas, o direito de decidir permanece com o paciente.


🧠 E se eu estiver internado, mas lúcido e orientado?

Se o paciente está consciente, orientado e capaz de entender as informações, ele tem pleno direito de:


  • Questionar,

  • Pedir para ver a medicação,

  • Recusar temporariamente até obter explicações,

  • E até recusar definitivamente, assumindo os riscos que devem ser explicados pelo médico.


A recusa deve ser registrada em prontuário, mas não pode resultar em punição, abandono ou tratamento pior.


👥 O acompanhante também pode intervir?

Sim. Quando o paciente:


  • É idoso,

  • Tem dificuldades de comunicação,

  • Está debilitado,

  • Ou é menor de idade,


O acompanhante ou responsável legal pode:


  • Perguntar sobre a medicação,

  • Pedir explicações,

  • Acompanhar horários e administração,

  • E questionar se algo parecer errado.


Isso é parte do direito de proteção do paciente vulnerável.


🚫 A equipe pode se recusar a mostrar ou explicar a medicação?


Não deveria. A transparência faz parte da segurança do paciente. Recusar explicação, agir com pressa sem informar ou tratar perguntas como “desconfiança” não é conduta adequada.


Se houver negativa de informação, o paciente pode:


  • Pedir para falar com o enfermeiro responsável ou com o médico,

  • Registrar reclamação na ouvidoria da unidade,

  • Anotar nomes, datas e horários, se necessário.


📌 Exercício de direitos não é atrapalhar o atendimento


Existe um receio comum de que questionar a equipe possa “atrapalhar” ou gerar conflitos. Porém, do ponto de vista legal e ético, o paciente que pergunta está colaborando com a própria segurança.


Hospitais que possuem boa cultura de segurança, inclusive, estimulam o paciente a perguntar e confirmar antes de procedimentos e medicações.



⚖️ Referências e Fontes Legais


  • Lei 8.080/1990 – Lei Orgânica da Saúde

  • Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde (Portaria MS nº 1.820/2009)

  • Resolução CFM nº 2.232/2019 (recusa terapêutica e objeção de consciência)

  • Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018)

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